PIROPO
Quem diz a verdade não merece castigo.
Um piropo pode mudar drasticamente o dia. Para melhor, que não haja dúvidas preliminares. E finte-se desde já a 170.ª disposição do Código Penal, que não é a esses piropos que quero chegar. Pouco me interessa, ademais, trazer novas achas à fogueira que divide águas entre o piropo e o assédio. Aliás, é precisamente para evitar cair nos incontornáveis achismos que tanto me faz a justiça da semântica em causa. Isto porque o piropo que verdadeiramente conta para este rosário é o não-sexual, o tudo menos sugestivo, o casual e meramente elogioso. Mais, é o piropo que não se coaduna com o jogo de opostos que na teoria o caracteriza, sejam esses opostos efectivos contrários ou legítimos semelhantes.
Seja o homem à mulher ou vice-versa, seja o homem ao homem e o seu reverso, há sempre no piropo segunda intenção. Ou primeira, até. Mas o piropo, por si só, não se justifica sem a própria sugestão que subentende ou declara. Mesmo que essa seja uma vontade virtual, no campo do desejo inconcretizável, há manifesta disponibilidade de espírito para tudo o que por detrás de um piropo — seja ele meramente descritivo ou realmente provocador — se pressupõe. É condição intrínseca ao dito piropo projectar caminhos que, muitas das vezes, nem o próprio piropo antevê. Isto quando o piropo é piropo. Volta a semântica ao barulho da justiça e temos novamente imbróglio legal.
Agora, nada haverá a dizer — até porque pouco se fala — do piropo que não é propriamente um piropo. Em boa verdade, ele não deixa de o ser na forma. Já na essência, vê-se despido de tudo o que faz dele autêntico piropo. O efeito? Rigorosamente o mesmo quando bem recebido. Melhor, só pode ser bem recebido. É benigno este piropo, não vem mal ao mundo nem ao sujeito passivo ouvi-lo. Muito pelo contrário, mais houvessem piropos destes e esse mundo giraria sobre si próprio em piruetas.
E que piropo é esse? Bom, vai do “Curto bué desses calções, onde é que compraste?” ao “Ficas muito melhor de barba”; começa no “Já se notam os treinos de perna” e acaba no “Quem me dera bronzear como tu”; passa pelo simples “És grande!” até chegar ao derradeiro “Só ia se tu fosses…”. Transversal a amizades mais ou menos próximas, alheio a sexos, géneros e intercepções. De igual para igual, sem insinuar absolutamente nada.
Piropo elogioso, sim, mas paralelo ao elogio. É que este encontra-se no campo do ser. Já o piropo pertence ao domínio do estar. É nota de rodapé num episódio passageiro, apontamento em tempo real à novidade que surge sem pré-aviso. O elogio, por outro lado, bem pode ter validade, mas nunca deverá cair em desuso. O piropo, por sua vez, é de aplicação única e intransmissível. E uma vez aplicado perde toda a sua aplicabilidade. “És bonito” resume-se a uma constatação que só o tempo pode vir a anular, enquanto “Estás bonito” tem um só tempo de veracidade, no preciso momento em que é dito. Porque se estou, não estava. Se não estava, não era. E se estou, não quer dizer que passe a ser. Mesmo que volte a estar, nunca estarei como agora — na hora em que a declaração “Estás bonito” sai da boca e ganha contornos de piropo — estou.
Paralelos por isso, é certo, mas assumidamente distantes. E é justamente entre o ser e o estar que a diferença maior entre elogio e piropo se revela: ser augura indubitabilidade, quando elogios leva-os o vento; enquanto estar não auspicia compromisso algum, ainda que a sua razão de ser nunca comprometa. O elogio garante que sou, mesmo que seja mentira. O piropo é da opinião que estou, sem querer enganar. E quem diz a verdade não merece castigo. Merece, isso sim, piropos.

